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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O tempo.

O tempo voa, moço.
E, sem ter retorno
Já lembro que te esqueci.

CLARISSA DAMASCENO MELO

Deixa prender.

Seguram meus pés,
Amarram minhas mãos,
Mas eu deixo...

O que está para matar
Ninguém prende.

CLARISSA DAMASCENO MELO

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Passarinho.

Do portão, 
A menina se perguntava
Por que o passarinho voava
E ela não.

CLARISSA DAMASCENO MELO

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Intransitividade.

Obrigada por perdoar as minhas lacunas vazias, e, vez ou outra, preenchê-la com verbos que eu não saberia conjugar. Obrigada pelo telefonema ao final da tarde, pelos cravos vermelhos que me foram entregues ao fim do trabalho, pelos chocolates... Obrigada por todas as palavras amigas que tens me dado, e pelo cuidado que tens para mim. Obrigada pelos chicletes, por amarrar meus cadarços, por olhar a rua antes que eu a atravesse, por abrir a porta do carro e fazer o pedido ao garçom. Obrigada pelos brincos, pelo vinho, pela soberba, pelos adjetivos e por teus olhos.

Mas, principalmente, obrigada por não existir.

CLARISSA DAMASCENO MELO

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O escrever.

Olhai a moça de choro fácil, olha em teus olhos e tente entender a inundação, inda que prematura seja.
Olhai as vírgulas pausadas em sua vida, e em como, cuidadosamente, ela retira cada uma delas.
Olha em teus cabelos os sinais remotos de uma manhã que não saberia amanhecer;
Olha, em teus cabelos, a pingar, a verdade crua que ela digere e não sabe colocar para fora.
Até seus lábios choram. Vê?
A lágrima goteja em uma chuva lenta, à meio passo,
Inda se forma ali, onde deveria morrer...

São as palavras que, em meio ao enlamear de seu rosto,
Decidem extraviar-se pelos dedos.

CLARISSA DAMASCENO MELO

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Por entre orações.

Fizeram-me orar as orações decoradas, enrolaram-me um terço no braço, e disseram-me para balbuciar, conta por conta, os nomes de meus salvadores. Fizeram-me acreditar no inferno, e que eu iria para o Céu, ver meu Senhor, sentado em sua cadeira de ouro, caso, em minhas orações, mencionasse o quanto o amava  e temia. Ao passo que, à noite, durante as novenas, eu bloqueava o meu balbuciar e, por dentro de meus dentes, a sair uma risadinha seca, eu pensava o quanto o Céu devia ser chato se toda essa gente que labutava um terço fosse, realmente, para lá.

CLARISSA DAMASCENO MELO

Sobre o que mata.

A garganta de nó,
Mãos vazias,
Passado de pó.

O que mata não está por vir,
Já veio.

CLARISSA DAMASCENO MELO

Coisa de verbo sem verso.

Encontram-se perdidos,
Sei lá eu onde ou porque,
Os verbos, os eloquentes verbos,
Que não mais aqui estão.

Estão soltos pelas calçadas,
Pelos vácuos de nós,
Pela erudição sombria que quase ninguém entende.
Perdemos os verbos pros versos inatingíveis.

E esta perda é dolorosa.
Pois aqui estou,
Dentro de mim mesma,
A engasgar-me,
Por não saber trilhar as verdadeiras trilhas
Do contar para ser entendida.

Perco-me em mim,
De mim mesma,
Vez ou outra,
A sentir como é
Ser

E ser,
Vez ou outra,
Para ver como é
Sentir.

E sentir, pois então, vos apresento as reticências...

CLARISSA DAMASCENO MELO

Nada de mim.

Se eu precisar me olhar no espelho,
Esconderei as rugas de minhas mãos,
Meus dedos, olhos, boca, língua, ombros, braços,
Pernas...

E ficarei dias jogando-me a esconder peças que me montam.
Só me olharei no espelho,
Quando não sobrar nada de mim.

CLARISSA DAMASCENO MELO

Dedicação.

Só para combinar,
O céu, a me ver na Terra
Decidiu, também, chorar.

CLARISSA DAMASCENO MELO

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

É Recíproco.

A reciprocidade matou o dengo o doce matou o verso a linha os dois a reciprocidade matou o engarrafamento de pernas a retórica a conjunção a reciprocidade comeu o caminho o verbo a saudade a diagramação engoliu a lírica o relógio o tempo o querer o saber o voto a opinião a máquina de escrever a reciprocidade comeu Drummond Cécília o alfabeto meu inglês a reciprocidade destruiu os sons acabou com a vírgula as pausas as interrupções a reciprocidade perdeu a rima a reciprocidade verteu lágrima verteu mar oceanos décadas milênios um dia uma hora um nome a reciprocidade caminhou por ruas escuras e perdeu-se lenta em cabulosa inanimação e reciprocidade perdeu dedos o viver a imaginação o poema a atmosfera...

E se eu digo, meu doce, que a reciprocidade acabou com tudo,
É porque, meu doce, ela nunca apareceu.

CLARISSA DAMASCENO MELO

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Verdade.

Deixe-me falar verdades.
Das mais cruas às mais cruéis.
Das não-tuas.
Das universais.
Das desconhecidas
Das mutiladas nos vastos papéis.

CLARISSA DAMASCENO MELO

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Presentes.

À mim,
Foi dada a incoerência
Do amar
Sem amada ser.

CLARISSA DAMASCENO MELO

Se chegar, bata a porta.

Quando chegares, bata a porta. - Disse em um assovio - Traga as flores que pedi, as colocarei no jarro, na mesa do jantar de hoje à noite. Não falte. Poli meus melhores pratos para te receber de volta. Tu saístes daqui tão apressado que esqueceu de levar algumas coisas. Esqueceu as chaves de seu carro e do apartamento de sua mãe, esqueceu seu casaco pendurado atrás da porta, esqueceu suas gravatas - aquelas, que eu ajeitava em você pois você nunca foi capaz de dar um nó. Aliás, em que tu fostes capaz? Tu fostes capaz de ir embora sem levar a mim. Mas, já que voltas, entre em casa e bata a porta. Se trouxer flores, traga-as amarelas, penduradas em um buquê. Estás lembrado das minhas flores favoritas?
Farei teu prato favorito. Comprei os peixes. O vinho. Ah, o vinho... E comprei uma toalha nova. Você costumava reclamar da toalha antiga. Lembra-te? Se não lembrar, entendo. Tu reclamavas de tantas coisas... Da pia do banheiro, que deixava a torneira gotejando; do sofá, que fazia um barulho engraçado quando tu se jogavas nele; do chuveiro, que sempre estava ou muito quente ou muito frio; de mim, que não parava de falar nunca. Mas, quando tu cruzastes a porta pela última vez, eu calei a boca.
E, já que voltas, darei espaço para que fales também. Diga-me, como vai a sua nova mulher? Soube que ela é ainda mais magra que eu e tem cabelos lindos. Parabéns. Você conseguiu. Diga-me... Tu dizes para ela que será eterno também? E ela, quando o escuta, está a dobrar tuas blusas como eu fazia? Está a preparar-te o que comer? Está a retribuir-te com um beijo de 'durma bem'? E você, já decorou quais as tuas flores favoritas? Qual a música que ela ouve com mais frequência, querido? Se tu sabes, então ela é melhor que eu. Tu nunca soubestes quem eu era. Ou o que eu fazia. Ou o que eu queria ser. Tu só sabias que, à noite, eu estaria a ler um livro calmo em nossa cama.
Nosso amor sempre foi intransitivo. Nunca precisou correr a casa, nem as escadas, nem em lugar nenhum. Sempre só precisou existir. Mas, como tudo o que existe, acabou-se em uma segunda-feria. Tu dissestes adeus e eu ouvi, emudecida, as palavras tuas. Fiquei sentada, ali, por dias, sabia?
Com o tempo, percebi que as chaves de seu carro não estavam mais sobre a escrivaninha, nem teu casaco, atrás da porta, e eu, eu nunca mais dei nó em gravata alguma. Tu sumistes por completo. Tudo sumiu. O peixe, o vinho... Até a porta está emperrada, sem ninguém entrar. Apenas eu transito entre o dentro e o fora do que um dia foi nosso, do que, um dia, foi feito de nós pra nós. Tu desatasse o nó.
E, agora, olhando em redor... É melhor que tu não venhas. Não. Não venhas. Eu sei que não trará contigo minhas flores favoritas, e sei que dirá que tu não gostas nem de peixe, nem de vinho, nem de mim. Sei que dirás que não existe outra mulher. Não venha. Tu sujarás o meu tapete, como fazia; e o forro do sofá. E me deixará irritada. Dirá que não mudei a toalha da mesa. E achará ruim os pratos que poli. Não. Não venha. Se chegares, finja que não está. Aliás, finja que está. Ver-te inerte me lembra o tempo que foi nosso. Tu sempre fostes inerte.
Mas, se chegares, bata a porta - Disse em um assovio - Não gosto do vento entrando. Aliás, deixe-a aberta. Não. Não chegue. Não. Não chegue.
Tu trará teu filho que não é meu. E ainda me mostrará quão linda é a tua nova mulher. Seu filho vai estar falando as primeiras palavras, mas não saberá meu nome. Não traga ninguém. Não venha. Não traga flores amarelas. Não traga a sua mulher. Não traga seu filho. Eu não comprei vinho. Não comprei uma toalha nova. Está tudo velho. O tempo passou, querido. Mas ainda é ontem. Vais chegar? Se chegar, bata a porta...


Fechou um olho, fechou o outro.
Deitada, tinha as mãos descansadas sobre o peito.
A boca, trêmula, ainda balbuciava na escuridão.

CLARISSA DAMASCENO MELO

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Chegue a ser.

Chegue em linhas.
Sabe...
As que são construídas nas horas vãs,
Nas horas de medo,
Nas horas em que o relógio
Não funciona.

Chegue em linhas
Que ainda escorrem...
Mesmo com os dedos duros,
Mesmo com a mente atrofiada,

Essas são as melhores horas
E os melhores motivos para que você apareça.

Seja, na frase, a exclamação que detona uma certeza.
Seja a interrogação que impõe dúvida.
Seja a vírgula que dá a pausa,
Seja o ponto que dá o fim.

Mas seja algo da frase.

Seja o verbo intransitivo,
Ou transite por um complemento que desejas.

Seja o objeto que me é direto,
Ou seja a indireta que me atinge em objeto.

Seja o núcleo,
O sujeito - oculto, por que não?!
O predicado
O pre, o disposto a me ouvir.

Seja o que quiser,
Mas chegue e chegue a ser.

CLARISSA DAMASCENO MELO





sábado, 2 de fevereiro de 2013

Antes, depois, agora.

- EU ACHO QUE É UM POUCO DISSO! –Gritou- Desse amor doente, sem destino, malvado, corrompido! É um pouco de ganância, de fome, de luxúria, de medo, de guerra, de irracionalidade, de imbecilidade, de sede, de cólera... – Respirou – Mas ainda é amor, do mais puro e do mais covarde que tu possas imaginar. É um pouco de tanto querer cuidar que chega a se desejar a doença, é um pouco de querer ferir-me só pra ver-te correndo em meu encontro para me abraçar e dizer que tudo vai ficar bem. É um pouco do querer-te sem querer-te. Do pisar pisando sem no chão tocar. E eu te amo tanto que te quero dentro de minha vida, sufocado. E se dela tu ousares sair, saio eu também. – Olhou-o, não havia resposta. – E tu podes ficar aí, calado, sem falar-me, mas ainda estarei aqui, a cuspir-lhe a verdade que circunda meu peito e me aperta. EU ESTOU SEM AR! VÊ?! E ainda que tu fiques mudo pela eternidade, terá ainda que ter ouvidos que terminem de me escutar. Não careço de respostas tuas. E mesmo que fiques surdo, continuarei gritando na frente de seus olhos para que, ainda assim, veja o que eu digo. E se ficares mudo, surdo e cego, ainda estarei aqui, a tocar-lhe a mão, para que saibas que ainda estou aqui e não desisti de tua vida em minha vida. É um pouco do querer gritar para que o que está aqui saia de minha garganta e invada a sua, como se o amor fosse uma doença que pudesse ser transmitida no vento. Essa doença é degenerativa e eu quero ver-te morrendo dela. A morte mais linda é aquela que divide o coração em dois, sem remendo. Já pensou que lindo deve ser morrer de amor? No meio da praça, com o buquê de flores na mão, debaixo da chuva, ou no meio do quarto vazio. Eu morro onde quer que você queira. E se quiseres partir meu coração em dois, faça; pois tens liberdade de fazer o que quiseres com aquilo que é teu. – Silêncio – E se me faltarem palavras, ainda assim saberás que estou diante de ti, não saberás? Estou fazendo força para arrancar de um espaço pequeno o que já me é demais grande. O coração é tão pequeno, mas possui profundidade cabulosa. Essa agonia besta que vês é agonia de um poço enorme aberto dentro de uma coisa pequena. E todas essas linhas adornadas de exclamações e interrogações estão sendo puxadas por uma mão que enfio em minha garganta. Essa mão doente que me faz engasgar cada palavra antes de dizê-la. Quem criou essas palavras todas pensou em mim, diante de ti, a dizer-te cada uma delas. Dizer-te sem saber dizer. E se me pedires para que eu repita, uma a uma, eu não saberia. Amor é bicho que não se decora, é rabisco de improviso, é coisa que não se demora. E se eu demorar, se eu não estiver onde eu deva estar, é coisa que acontece pra fazer o amor lançar suas farpas dolorosas. O amor tem dois lados, sabia? Há um pouco de Deus dentro dele, mas também tem um demônio. Não adivinhe diante de quem tu estás agora. A divindade possui duas caras e nem todo demônio é mau. Muitos demônios são só injustiças. Talvez tu estejas mudo por injustiça. – Entraram no quarto, dois homens. A fala acelerou, feito o tempo diante dela, que não deixava a voz pausar – E se no fim estivermos juntos, evitarei olhar-te. A saudade é outro bicho que nos pertence. Pertence à mim, já que tu és eu e eu sou tu. Nós nos somos. ME SOLTA! EU NÃO VOU SAIR! Eu ainda tenho muito para dizer a este que não responde. ELE NÃO ME RESPONDE POR QUÊ? ELE NÃO RESPONDE... – Um choro agudo, uma agulha, um fim. Um corpo mole. Um corpo rígido. Dois homens carregam uma mulher para fora do necrotério. O rosto pálido encima da maca não se mexia. Jamais se mexeria. Mas ainda era capaz de ouvir.
Era a morte tentando vencer o amor. E era o amor enfrentando a morte.


CLARISSA DAMASCENO MELO